INTERROGATÓRIO

Meursault não sentou no banco dos réus do STF

O Brasil, assombrado, viu menos soldados e mais figuras desbotadas. Homens que não parecem almejar a morte com honra

Houve um tempo em que, diante do inevitável, um homem se calava com dignidade. Em que, prestes a ser esmagado por um julgamento marcado mais pelo simbolismo do que pela justiça, a altivez ainda era possível. Meursault — o estranho, o deslocado, o homem que não chorou no enterro da mãe — enfrentou o tribunal que já o condenava menos por um crime e mais por uma conduta incompreendida. E, mesmo assim, manteve-se de pé. 

Na atual conjuntura brasileira, diante de acusações gravíssimas — contra a democracia, contra a base da República — o que se viu foi um desfile de desculpas improvisadas, pactos quebrados, delações volúveis, corréus interrogados inusitadamente num mesmo ambiente com transmissão ao vivo para todo o país e tentativas de humanização pela via mais decadente: a da autopiedade. 

Um ex-presidente, militar da reserva, tentou suscitar alguma simpatia confessando que, no fundo, não entregou o poder por grandeza, mas por medo de vaias. E, em seguida, como quem ainda busca empatia do próprio algoz, sugeriu compor chapa com aquele a quem deveria apenas prestar contas. No gesto, traiu não apenas a liturgia do cargo que um dia ocupou — mas os próprios seguidores, reduzidos agora a figurantes indesejáveis de um projeto malsucedido. 

Outro, ex-oficial das forças especiais, veio às pressas do banheiro — talvez fugindo de si mesmo. Entregou o comandante. Delatou como quem abdica da coragem de suportar o peso das próprias escolhas. A lealdade, outrora cultuada como virtude militar, ali parecia apenas um rastro de papel. E houve também um ex-vice-presidente, militar, que ousou descontrair em audiência. Tentou fazer rir. Foi silenciado pela voz firme do relator, que lhe lembrou que havia assinado seu mandado de prisão. 

Riram quando o momento exigia seriedade. Desprezaram seus apoiadores com a indiferença de quem já não precisa mais da massa que os sustentou. O silêncio, que em Camus era nobre, aqui foi substituído por gracejos e hesitações. O que se assistiu foi menos um ato de defesa e mais um espetáculo de covardia performática — homens que pareciam afeiçoados aos seus carcereiros, absorvidos por uma síndrome de Estocolmo coletiva. 

Crédito: ZUMAPRESS.com/ Marcos Correa/President Brazil

Essas cenas não seriam tão melancólicas se não comprometessem algo maior: a imagem das Forças Armadas — instituições que dependem, mais do que qualquer outra, da confiança da nação. A defesa de um país exige mobilização moral, não apenas estratégica. E essa mobilização nasce da credibilidade de seus homens. O uniforme, símbolo de honra, torna-se apenas tecido — e mal passado. 

Meursault, personagem de Camus, é condenado porque não se encaixa. Porque não performa o que a sociedade espera. Mas nunca trai a si mesmo. Enfrenta a morte com a serenidade dos que já entenderam a farsa do julgamento. Não cede. Não chora. Não delata. Não pede desculpas para tentar comprar indulgência. Já os marmanjos de farda e gravata que se sentaram diante do Judiciário brasileiro buscaram caminho diverso. Desmentiram-se, recuaram, suplicaram simpatia e, em alguns casos, tentaram reescrever a própria biografia em tempo real. A tragédia se transformou em comédia mal encenada. E não há nada mais danoso a uma instituição militar do que o espetáculo da covardia travestida de sensatez. 

Não é preciso defender inocentes para exigir firmeza. Mesmo um criminoso pode cair de pé. Mesmo um réu, antes iluminado pelas luzes da ribalta, pode — e deve — sustentar a sua própria dignidade. Especialmente se já vestiu a farda, especialmente se um dia comandou soldados. O gesto fala mais do que a defesa técnica. A altivez com que se responde ao julgamento pode distinguir os homens. 

O Brasil, assombrado, viu menos soldados e mais figuras desbotadas. Homens que não parecem almejar a morte com honra. Que se esfarelaram quando deveriam ser colunas. Que, ao tentarem salvar a própria pele, parecem ter deslustrado as instituições que um dia representaram. 

E a História — essa sim, implacável como o tribunal de Meursault — já lavra sua sentença: 10 de junho, o dia em que homens que se diziam de guerra titubearam ao enfrentar a paz.  

 

Alcir Moreno da Cruz é Advogado Criminalista. 

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